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Livro se abrindo


SERÁ QUE O BRASIL PERDEU UM GRANDE CARTUNISTA?

Luiz Botelho (Setembro/2004)

Quando eu era jovem sonhava em me tornar um grande cartunista. No início dos anos 70 ensaiei os primeiros passos nesta arte escrevendo para a seção "Camisa 12" da Revista Placar. Todo o material publicado desta fase eu recortava e guardava numa grande caixa de papelão que, infelizmente, não resistiu à primeira faxina feita pela minha esposa, no início do nosso casamento. Ela pensou que se tratava de velhos recortes sem valor e, aproveitando-se da minha ausência, jogou tudo na lixeira do Condomínio, por considerar aquela caixa um local ideal para futuro ninho de baratas, conforme se justificou na época.

Hoje em dia, vivo brigando com a minha memória que insiste em esquecer quase tudo que leio, escuto ou prometo. Porém, muitas coisas que escrevi naquela época lembro quase que textualmente e aproveito esse espaço para apresentar uma amostra para que vocês mesmo avaliem se eu tinha ou não futuro como cartunista.

Uma das primeiras que saiu publicada foi uma gozação com o campeonato pernambucano. Na semana anterior, um cabra-da-peste daquelas bandas teve a ousadia de criticar o futebol baiano que, apesar de não ser essas maravilhas toda, dava de mil a zero no campeonato deles. Lá era comum os três chamados grandes aplicarem impiedosas goleadas nos demais adversários. Durante aquela semana caiu um temporal em Recife que deixou todos seus estádios impraticáveis ao futebol. Juntei tudo isso e escrevi: "Devido às enchentes de gols, os torcedores pernambucanos rezam aos pés da Santa Cruz, para que o Sport no estado não se resuma a um torneio Náutico". Me senti vingado.

Outra que me lembro foi quando Pelé, após a milésima despedida do futebol, assinou contrato para atuar no Cosmos e foi ensinar os norte-americanos a jogarem bola. Naquele mesmo ano, o Santos fez uma péssima campanha no campeonato paulista e acabou desclassificado ainda na primeira fase. Eu saquei imediatamente qual foi a razão: "O Santos não resistiu às saudades de Pelé. Acaba de ir para o espaço, afim de ver o Negão no Cosmos".

Peguei no pé também de Emerson Fittipaldi quando ele cismou em construir o primeiro carro brasileiro de Fórmula 1. Aliás, de brasileiro mesmo só tinha os pilotos (o outro era seu irmão Wilsinho) e o dinheiro do Copersucar, que patrocinava a empreitada. Primeira temporada, fiasco total. Os carros, quando conseguiam lugar no Grid, terminavam nas últimas colocações, muitas voltas atrás dos líderes – isso quando não quebravam. No ano seguinte, a Revista Placar publicou uma ampla reportagem apresentando as novidades do novo carro brasileiro. Não resisti e escrevi: "De todas as novidades do Fitti II, a mais original foi a troca do conta-giros por um marca-passo". Começa a temporada, GP da Argentina e, incrível, Emerson termina em terceiro, levando ao pódio o carro brasileiro. Segunda prova, GP do Brasil e, inacreditável, Emerson vence a corrida. Não tive outra saída a não ser dar minha mão à palmatória: "Como dizia nosso amigo Gibran, ‘as tartarugas conhecem as estradas melhor do que os coelhos’. Pois é, nosso Emerson, ano passado, era tal qual uma tartaruga, a conhecer todos os autódromos do mundo. Hoje é um coelho". Outro tiro fora do alvo. Terminada a temporada sul-americana, as grandes equipes lançam seus novos carros para a fase européia do campeonato e lá se foram os irmãos Fittipaldi e o dinheiro do Copersucar de volta à rabeira. Bom, meu sonho era ser cartunista e não advinho.

Alguns meses mais tarde, a Revista Placar contratou o cartunista Laerte para cuidar da página de humor. Colaborei por muito tempo com minhas piadas e, creiam, o Laerte gostava muito de mim. Quando ele lançou uma nova seção, "Pontapé Inicial", dirigida a novos cartunistas, peguei lápis, borracha e canetas esferográficas de várias cores e me pus a tentar desenhar as idéias que me vinham aos borbotões. Semana seguinte, abro a revista e lá estava um dos meus cartuns publicado e a seguinte mensagem do Laerte: "Já estava fechando a página quando, como diz a Isaurinha, ‘o carteiro chegou e meu nome gritou com uma carta na mão’. Era do Luiz Botelho, o baiano que não perde tempo. Está com um personagem, o Rufino, aprontando as maiores. Agora, chamar o Botelho de estreante é o mesmo que chamar feijoada de lanchinho. O Botelho escreve para a Placar desde que a revista era contada nos dedos, mas, como a sacada está boa, aí vai. Botelho, te manca aí que tão achando que estamos de caso". O cartum publicado tinha o título "Rufino e o musibol" e era composto por dois quadros. No primeiro, jogadores e torcedores do Bahia faziam a maior festa. Charanga, bandeiras tricolores tremulando, todos caminhando em direção a um vestiário com a identificação: "Grupo dos Vencedores". No segundo, jogadores e torcedores do Vitória chorando copiosamente, bandeiras rubro-negras enroladas, todos se dirigindo a um outro vestiário denominado de "Grupo dos Perdedores". No primeiro quadro Rufino dizia: "Enquanto o Bahia vai em ritmo de samba rumo à classificação..." e completava no segundo "...o Vitória vai em ritmo de choro a caminho da repescagem". Semana seguinte e o cartum publicado era do meu irmão Arival. A mensagem de Laerte dizia: "O estreante da semana é Arival de Morais Filho. Não vou pôr o sobrenome senão vocês vão achar que estou de sacanagem. Vou pôr sim. É Botelho, e daí? No Nordeste só existem duas pessoas realmente gente fina: o Luiz Botelho e a misteriosa Miss Inhame que por sinal não recebi ainda as fotos...".

Porém, um grande desastre aconteceu comigo e mudou completamente meu destino. Consegui a 194ª colocação das 200 vagas oferecidas pelo Curso de Engenharia Civil da Ufba, em 1975. O resultado disso, todos vocês conhecem muito bem.



Escrito por Luiz Botelho - Salvador - Ba. às 07h18
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