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Livro se abrindo


COMO DESCOBRI CHICO BUARQUE

Luiz Botelho (Abril/2006)

Quase todas as pessoas que me conhece sabe o quanto eu admiro a obra musical e teatral de Chico Buarque. Em 1966, quando ele venceu o II Festival de Música Popular Brasileira com a música "A Banda" e se tornou conhecido nacionalmente, eu, com apenas 10 anos de idade, ainda não tinha um interesse musical definido. Dos quatro elepês que Chico gravou entre 1966 e 1969, nenhuma música despertou minha atenção na época de seus lançamentos. Não me dei conta também, em 1970, da famosa canção "Apesar de Você", cujo compacto vendeu 100.000 cópias em uma semana, até ser censurada e proibida sua execução pela Ditadura Militar. A primeira música de Chico que eu aprendi a cantar integralmente foi "Construção", lançada em 1971, que fez muito sucesso, sendo bastante executada nas estações de rádio, mas, devo confessar, naquela época a minha música favorita tinha o seguinte refrão: "Eu te amo meu Brasil / Eu te amo / Meu coração é verde, amarelo, branco, azul anil / Eu te amo meu Brasil / Eu te amo / Ninguém segura a juventude do Brasil" – Estava totalmente alheio ao que ocorria no meu país.

Ao ingressar na Universidade, no curso de Engenharia Civil, em 1975, recebi um convite do Movimento Estudantil, junto com os demais calouros, para participar de uma reunião na Escola Politécnica, onde se dariam as boas-vindas aos novos universitários. Compareci ao encontro não tanto pelo Movimento Estudantil em si, mas pela oportunidade de ter acesso à minha escola, o que só era permitido a partir do 3º semestre naquela época. Pois foi justamente nesta reunião que eu descobri definitivamente Chico Buarque. Os estudantes estavam preparando um manifesto, para ser distribuído durante uma passeata que estava sendo organizada, e nele havia um texto que me tocou profundamente. Era tão bonito que eu quis saber qual dos colegas o tinha escrito. Um dos veteranos, que eu conheci naquele dia e começamos ali mesmo uma amizade após ele ter me confundido com meu irmão, seu colega, que era muito parecido comigo, me disse que o poema era de Chico Buarque e me emprestou, neste mesmo dia, o livro "Gota d’Água" do qual o texto foi copiado e que dizia: "Eles pensam que a maré vai mas nunca volta. Até agora eles estavam comandando o meu destino e eu fui, fui, fui, fui recuando, recolhendo fúrias. Hoje sou onda solta e tão forte quanto eles me imaginam fraca. Quando eles virem invertida a correnteza, quero saber se eles resistem à surpresa, quero ver como eles reagem à ressaca".

Fiquei encantado com o livro e fui na livraria comprar um outro, sobre a peça "Calabar, o Elogio da Traição", de Chico e Ruy Guerra, cuja apresentação teatral tinha sido proibida pela censura militar, segundo informação do meu novo amigo. Ao mesmo tempo peguei emprestado do meu irmão mais velho os três primeiros discos de Chico e gravei as músicas em fitas cassete. Fui ainda nas casas de discos e comprei outros elepês e compactos de Chico que consegui encontrar e começou deste modo uma paixão que perdura até hoje.

Poucos calouros compareceram àquela reunião com os veteranos. Fico feliz por ter sido um deles. Nunca tive coragem suficiente para participar ativamente do Movimento Estudantil, mas sempre admirei àqueles que reagiam, não se conformando com o cerceamento da liberdade, assim como fizeram Chico Buarque e este meu amigo, cada um do seu jeito. Com relação ao livro emprestado, não lembro a razão de nunca o ter devolvido, pois por alguns anos mantive contato regular com o seu antigo dono. Já faz muito tempo que não o vejo ou tenho notícias dele, mas guardo com carinho este livro (valorizado por conter sua assinatura) que foi o marco zero da minha paixão pela obra de Chico Buarque.

 



Escrito por Luiz Botelho - Salvador - Ba. às 01h34
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